A presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, reconheceu esta semana que a situação económica da zona euro “continua frágil”, apesar do recente acordo alcançado no Médio Oriente. Em simultâneo, defendeu o aumento “sólido” das taxas de juro decidido pelo Conselho do BCE na sua última reunião — a primeira subida após sete reuniões consecutivas de manutenção.
As declarações, citadas pelo idealista/news, revelam a complexidade do momento: a autoridade monetária está a apertar a política monetária num contexto de fragilidade geopolítica, o que tem impacto direto nas carteiras das famílias portuguesas com crédito habitação.
Porque subiu o BCE os juros?
A decisão do BCE de aumentar as taxas de juro diretoras em 25 pontos base surge após um período de inflação persistente na zona euro. Apesar de a economia europeia dar sinais de abrandamento, o BCE considera que o risco de a inflação se manter acima da meta de 2% justifica um aperto monetário adicional.
O conflito no Médio Oriente — mesmo após o recente acordo diplomático — continua a gerar incerteza, com impacto nas cadeias de abastecimento e nos preços da energia. Este “efeito de segunda ronda” na inflação é precisamente o que o BCE quer travar.
O que muda para as famílias portuguesas?
A subida das taxas diretoras do BCE influencia diretamente as taxas Euribor, que servem de referência para a grande maioria dos créditos habitação em Portugal (cerca de 90% dos contratos estão indexados a taxa variável ou mista).
Os dados mais recentes mostram a Euribor a 12 meses nos 2,781% (24 de junho), depois de ter tocado os 2,817% na semana anterior. Apesar da ligeira descida pontual, a tendência geral desde meados de junho tem sido de subida, pressionada pelo anúncio do BCE.
Na prática, uma família com um crédito de 150.000 euros a 30 anos indexado à Euribor a 12 meses com spread de 1% verá a sua prestação mensal aumentar cerca de 20 a 25 euros por cada subida de 0,25 pontos percentuais na taxa de referência, no momento da revisão anual.
Crédito habitação: que fazer neste cenário?
Com a perspetiva de que as taxas de juro possam manter-se elevadas durante mais tempo, os especialistas recomendam:
- Rever as condições do crédito: um spread elevado pode ser renegociado. A concorrência entre bancos continua forte e há margem para melhorar as condições atuais.
- Considerar a taxa mista: fixar a taxa durante 2 a 5 anos oferece previsibilidade nas prestações, protegendo contra novas subidas da Euribor.
- Amortizar antecipadamente: para quem tem poupanças disponíveis, amortizar capital reduz a fatura de juros futuros — e a comissão de amortização continua temporariamente suspensa.
- Simular cenários: perceber quanto subiria a prestação em diferentes cenários de Euribor ajuda a planear o orçamento familiar com antecedência.
A fragilidade económica que Lagarde descreve deve ser encarada como um sinal de prudência, não de alarme. O mercado de trabalho português mantém-se robusto, o incumprimento no crédito habitação está em mínimos históricos e os bancos continuam a financiar a aquisição de casa própria — em 2025, aliás, concederam mais 35% de crédito do que em 2024.
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