Com a Euribor a 12 meses a recuar para os 2,755% e os depósitos a prazo a oferecerem taxas cada vez mais competitivas, muitas famílias portuguesas enfrentam um dilema financeiro: será melhor amortizar o crédito habitação ou aplicar as poupanças num depósito a prazo?
A resposta não é única e depende da situação específica de cada família. Neste artigo, analisamos os números para ajudar a tomar a decisão certa.
O cenário atual: Euribor a cair, depósitos a subir
Em meados de junho de 2026, a Euribor a 12 meses fixou-se nos 2,755%, uma descida face aos 2,874% de 12 de junho. Embora a tendência recente seja de alívio, a taxa continua historicamente elevada quando comparada com os valores negativos registados entre 2016 e 2021.
Do lado da poupança, os depósitos a prazo começaram a tornar-se mais atrativos. Segundo o Banco de Portugal, a taxa de juro média dos novos depósitos a prazo de particulares atingiu valores próximos dos 2,5% a 3% em maio de 2026, com alguns bancos a oferecerem campanhas promocionais que superam os 3% para novos clientes.
Fazer as contas: amortizar vs. investir
Vamos considerar um exemplo concreto. Imaginemos uma família com:
- Um empréstimo de 150.000 euros a 30 anos
- Spread bancário de 1%
- Euribor a 12 meses de 2,755%
- Taxa de juro total (TAN): 3,755%
- Uma poupança disponível de 10.000 euros
Cenário A: Amortizar 10.000 euros
Ao amortizar 10.000 euros no crédito habitação, a família reduz o capital em dívida para 140.000 euros. Mantendo o prazo, a prestação mensal diminui de aproximadamente 694 euros para 648 euros — uma poupança de 46 euros por mês, ou 552 euros por ano.
Mas atenção: a amortização tem uma comissão de 0,5% sobre o montante amortizado (nos contratos de taxa variável), o que representa 50 euros neste exemplo. Além disso, ao amortizar, a família perde a liquidez dos 10.000 euros — o dinheiro deixa de estar disponível para emergências.
Cenário B: Investir 10.000 euros num depósito a prazo
Aplicando os mesmos 10.000 euros num depósito a prazo a 3% ao ano, a família obtém:
- Juros brutos anuais: 300 euros
- Imposto (28% sobre juros): 84 euros
- Juros líquidos anuais: 216 euros
Comparando diretamente:
| Critério | Amortizar | Depósito a Prazo |
|---|---|---|
| Rendimento/poupança anual | 552 € | 216 € |
| Liquidez | Perdida | Mantida |
| Comissão de amortização | 50 € (uma vez) | 0 € |
| Risco | Nenhum (poupança garantida) | Nenhum (capital garantido) |
A decisão não é apenas financeira
Em termos puramente financeiros, amortizar o crédito habitação é mais vantajoso — a poupança anual de 552 euros supera largamente os 216 euros líquidos do depósito a prazo. A razão é simples: a taxa de juro do crédito (3,755%) é superior à taxa do depósito (3% bruto, ~2,16% líquido).
No entanto, há fatores não financeiros a considerar:
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Fundo de emergência: os especialistas recomendam ter entre 6 a 12 meses de despesas em poupança líquida. Se os 10.000 euros representam a totalidade das poupanças da família, amortizar pode não ser prudente.
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Perspetiva de subida das taxas: se a Euribor voltar a subir (a Fed sinalizou que poderá aumentar as taxas nos EUA, e o BCE poderá seguir), a poupança com a amortização será ainda maior.
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Objetivos de vida: se a família planeia vender a casa nos próximos anos, amortizar pode não fazer sentido — o capital será recuperado na venda.
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Benefícios fiscais: as mais-valias de depósitos a prazo são tributadas a 28%, mas há alternativas como os PPR que oferecem benefícios fiscais no IRS.
Alternativa: uma estratégia mista
Uma abordagem equilibrada pode ser a melhor solução para muitas famílias:
- Amortizar 5.000 euros no crédito habitação (poupança de ~276 euros/ano)
- Manter 5.000 euros num depósito a prazo como fundo de emergência
Desta forma, reduz-se a prestação da casa sem comprometer totalmente a liquidez.
O papel do intermediário de crédito
Cada família tem uma situação única: rendimentos, despesas, taxa de esforço, idade e planos futuros. Um intermediário de crédito pode ajudar a simular diferentes cenários e encontrar a solução mais adequada, seja amortizar, renegociar o spread, transferir o crédito para outro banco ou mudar de taxa variável para mista.
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Fontes: Banco de Portugal, Euribor-rates.eu, Doutor Finanças