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Nem toda a gente recebe o mesmo valor todos os meses. Comissões, bónus anuais, trabalho sazonal, freelancing com meses fortes e meses fracos — há muitas formas de ter rendimentos irregulares. O desafio é que os bancos gostam de previsibilidade. Este guia explica como apresentar rendimentos variáveis de forma a maximizar as suas hipóteses de aprovação.
Como os bancos calculam rendimentos variáveis
1. Média ponderada de 2-3 anos
O banco calcula a média anual dos rendimentos declarados nos últimos 2-3 anos de IRS. Se num ano ganhou 30.000 € e no outro 18.000 €, o banco usa a média: 24.000 €/ano. A maioria dos bancos aplica ainda um fator de segurança de 70-80% sobre esta média, o que pode reduzir ainda mais o rendimento considerado.
2. Separação entre base e variável
O banco distingue claramente entre rendimento base (fixo, recorrente) e rendimento variável (comissões, bónus, horas extra). O rendimento base é considerado a 100%. O variável pode ser considerado apenas a 50-70% — ou mesmo ignorado por completo, dependendo do banco e da consistência histórica.
3. Consistência é mais importante do que o valor absoluto
Dois anos consecutivos a ganhar 20.000 € variáveis + 10.000 € fixos são mais valorizados do que um ano de 50.000 € seguido de um ano de 10.000 €. A estabilidade da componente variável — mesmo que modesta — pesa mais do que picos isolados. O banco quer ver que o rendimento variável não é «sorte», mas sim uma tendência sustentada.
Estratégias para maximizar o rendimento considerado
| Estratégia | Como aplicar | Impacto estimado |
|---|---|---|
| Apresentar 3 anos de IRS consistentes | Mostrar que a componente variável é estrutural, não acidental | Aumenta a percentagem considerada de 50% para 70-80% |
| Declaração da entidade patronal | Documento que detalhe a política de comissões/bónus e histórico de pagamento | Essencial para validar a componente variável como recorrente |
| Extratos bancários dos últimos 12 meses | Mostrar entradas regulares de comissões, mês a mês | Reforça a consistência além do que o IRS mostra |
| Entrada de 25-30% | Compensa o risco percebido pelo banco | Pode ser a diferença entre aprovação e recusa |
| Fundo de reserva equivalente a 12-18 meses de prestações | Demonstra capacidade de absorver meses de rendimento mais baixo | Dá conforto ao banco em caso de oscilação |
💰 Exemplo prático — Comercial com comissões:
- Carlos é comercial numa empresa de software. Rendimento do IRS dos últimos 3 anos: 28.000 €, 32.000 € e 30.000 €. Média: 30.000 €/ano (2.500 €/mês).
- Salário base: 1.200 €/mês. Comissões: média de 1.300 €/mês.
- Banco considera 100% da base (1.200 €) e 70% das comissões (1.300 € × 70% = 910 €). Total: 2.110 €/mês.
- Com taxa de esforço de 35%, prestação máxima: 739 €/mês.
- Crédito possível: aproximadamente 175.000 € (TAN 4%, 35 anos).
- Sem a declaração patronal, o banco poderia ignorar as comissões e considerar apenas 1.200 € → prestação de 420 € → crédito de apenas 100.000 €.
Documentação essencial
- IRS dos últimos 3 anos — com foco na consistência dos rendimentos totais
- Recibos de vencimento dos últimos 12 meses — discriminando base, comissões e bónus
- Declaração da entidade patronal a explicar a estrutura remuneratória e a política de bónus/comissões
- Extratos bancários dos últimos 12 meses — mostrando as entradas regulares
- Mapa de responsabilidades do BdP — limpo
- Comprovativo de poupanças — entrada robusta + fundo de reserva visível
Conclusão
Ter rendimentos variáveis não é um impedimento para comprar casa — mas obriga a preparar o terreno com mais cuidado. Documente tudo, mostre consistência ao longo de vários anos, reforce a entrada e mantenha um fundo de reserva robusto. E nunca subestime o poder de uma boa declaração da entidade patronal: pode ser o documento que transforma uma recusa numa aprovação.