Dívidas e Proteção Financeira · 7 min de leitura · 5 de julho de 2026

O que fazer antes de entrar em incumprimento

Guia prático para evitar o incumprimento de créditos: medidas preventivas, alternativas de renegociação e passos concretos antes de deixar de pagar. Informação adaptada à realidade portuguesa.

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Entrar em incumprimento — ou seja, deixar de pagar um crédito — é uma das situações mais stressantes que uma família pode enfrentar. Mas entre “ter dificuldades” e “deixar de pagar”, existe um caminho com várias opções que muitos portugueses desconhecem. Este guia explica o que fazer antes de atingir o ponto de rutura.

Não espere pelo primeiro telefonema do banco: quanto mais cedo agir, mais soluções estão disponíveis. Assim que perceber que o próximo mês pode ser difícil, aja. Os bancos têm procedimentos obrigatórios para clientes em risco de incumprimento (PERSI) e são mais flexíveis com quem toma a iniciativa antes da prestação vencer.

8 passos concretos antes de deixar de pagar

Passo 1: Faça um diagnóstico realista das suas contas

Pegue numa folha de papel ou Excel e liste todos os seus rendimentos (salários, subsídios, pensões) e todas as suas despesas fixas (créditos, renda, utilities) e variáveis (alimentação, transportes). O objetivo é perceber exatamente qual é o défice mensal. Muitas vezes o buraco é mais pequeno do que parece — e mais fácil de tapar.

Passo 2: Corte todas as despesas não essenciais

Antes de negociar com o banco, mostre que já fez o trabalho de casa. Cancele subscrições de streaming, ginásio, TV por cabo premium. Reduza o orçamento de supermercado. Suspenda férias e jantares fora. Apresentar ao banco uma lista de cortes já concretizados demonstra seriedade e pode fazer a diferença na negociação.

Passo 3: Contacte o banco antes da prestação vencer

Não espere pelo incumprimento. Ligue para o seu gestor de conta ou para a linha de apoio ao cliente e diga: "Estou com dificuldades temporárias e quero encontrar uma solução antes de falhar um pagamento." Os bancos são obrigados a integrar os clientes em dificuldades no PERSI (Procedimento Extrajudicial de Regularização de Situações de Incumprimento) e a apresentar propostas de regularização.

Passo 4: Peça a revisão das condições do crédito

Solicite formalmente uma renegociação: alargamento do prazo (reduz a prestação mensal, mas aumenta o total de juros), período de carência de capital (paga apenas juros durante 6–12 meses) ou redução do spread. O banco prefere renegociar a entrar em incumprimento — também não quer ficar com um crédito malparado.

Passo 5: Consolide créditos, se fizer sentido

Se tem vários créditos em vários bancos, a consolidação pode reduzir significativamente a prestação mensal total. Atenção: a TAEG do crédito consolidado pode ser mais alta e o prazo mais longo. Use esta opção com cautela e compare com a renegociação individual de cada crédito — a matemática nem sempre favorece o consolidado.

Passo 6: Procure apoios sociais e subsídios a que tem direito

Verifique se tem direito ao subsídio de desemprego, ao abono de família, ao complemento solidário para idosos, à tarifa social de energia ou ao apoio extraordinário à renda. Muitas famílias em dificuldades não recebem apoios a que legalmente têm direito por desconhecimento. A Segurança Social e as juntas de freguesia podem ajudar a identificar estas prestações.

Passo 7: Envolva a família e crie um plano conjunto

Se vive em casal ou em família, o plano de recuperação tem de ser conjunto. Sente-se à mesa, mostre os números, defina um objetivo comum e atribua responsabilidades. Não esconda a situação do cônjuge — o problema é dos dois e a solução também tem de ser dos dois. Um plano partilhado é sempre mais robusto do que um plano solitário.

Passo 8: Consulte um especialista ou mediador de crédito

Se as negociações diretas com o banco não avançarem, recorra a um intermediário de crédito ou a um gabinete de apoio ao sobre-endividado. A DECO, a Associação Portuguesa de Bancos (APB) e vários mediadores especializados podem ajudar a negociar condições mais favoráveis, muitas vezes com acesso a soluções que não são oferecidas espontaneamente ao balcão.

O que acontece se nada disto funcionar?

CenárioConsequênciaAinda há solução?
Atraso de 1 a 30 diasPenalização contratual (juros de mora), entra no registo interno de risco do banco✅ Sim — renegocie imediatamente
Incumprimento superior a 90 diasComunicação à Central de Responsabilidades de Crédito (CRC) do Banco de Portugal✅ Sim — mas as soluções são mais caras e limitadas
Incumprimento prolongado (>6 meses)Ação judicial, penhora de bens, penhora do salário até 2/3 do vencimento⚠️ Muito difícil — evite a todo o custo
Fim do PERSI sem acordoExtinção do procedimento, processo judicial⚠️ Pode levar à insolvência pessoal
📋 PERSI — a sua rede de segurança legal: Quando um cliente sinaliza dificuldades financeiras, o banco é obrigado por lei (DL n.º 227/2012) a integrá-lo no PERSI. Neste procedimento, o banco avalia a situação e apresenta propostas de regularização. O cliente tem direito a ser ouvido e a receber propostas concretas. O PERSI extingue-se se o cliente não responder no prazo ou se não aceitar as propostas — por isso, responda sempre.

Checklist: antes de entrar em incumprimento

  • Fiz um diagnóstico completo de todos os meus rendimentos e despesas mensais
  • Cortei todas as despesas não essenciais e documentei os cortes para apresentar ao banco
  • Contactei o banco antes da prestação vencer e sinalizei as dificuldades
  • Pedir a integração no PERSI e solicitei propostas de regularização
  • Explorei apoios sociais a que possa ter direito (Segurança Social, tarifa social)
  • Envolvi a família no plano de recuperação financeira
  • Consultei a DECO ou um mediador de crédito se as negociações diretas não avançaram

🧾 Exemplo prático: evitar o incumprimento de um crédito habitação

A Carla, 38 anos, perdeu o emprego e tem um crédito habitação com prestação de 550 €/mês. Rendimento do cônjuge: 1.100 €/mês. Em vez de esperar, fez o seguinte:

  • Contactou o banco no dia seguinte ao despedimento — mesmo antes de a prestação seguinte vencer
  • Apresentou os cortes já feitos: 120 €/mês em subscrições e ginásio
  • Pediu um período de carência de capital de 12 meses — a prestação baixou para 180 €/mês (apenas juros)
  • Inscreveu-se no centro de emprego e candidatou-se ao subsídio de desemprego (~700 €/mês)

Resultado: conseguiu 12 meses de margem para encontrar novo emprego sem entrar em incumprimento e sem manchar o seu histórico de crédito.

💡 O truque do "pagamento simbólico": Se não conseguir pagar a prestação total, pague o que puder — 50 €, 100 €, o que for possível. Um pagamento parcial demonstra boa-fé e mantém o diálogo aberto com o banco. É sempre melhor pagar parte da prestação do que zero.

Conclusão

Entrar em incumprimento não é inevitável, mas exige ação rápida e proativa. O maior erro é o silêncio — não responder às cartas, não atender o telefone, esperar que o problema desapareça. O segundo maior erro é agir tarde demais. Entre em contacto com o banco antes de falhar o primeiro pagamento: as soluções são mais numerosas, mais flexíveis e menos dolorosas. Aja hoje.

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